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Redes sociais e

os novos conflitos virtuais

Por José Manuel Alho

As redes sociais na internet apareceram nos primeiros anos do século XXI e o seu crescimento e generalização nas nossas vidas impôs-se a tal ponto que sempre que nos referimos a redes sociais associamo-las instantaneamente a redes sociais on-line. Há dez anos, em 2004, surgiu o Facebook (FB). Sobressaiu desde cedo porque as suas aplicações estimulavam a interatividade de modo a otimizar as ligações entre os seus membros. Inclusivamente, em 2009, chegou-se à conclusão que o FB era já a rede social com maior número de utilizadores mensais de toda a internet. Em rigor, dos 625 milhões de navegadores, aproximadamente 58% desses utilizadores já havia aderido a redes sociais. Em Portugal, o impacto das redes é extraordinariamente significativo até porque, dos 2,9 milhões de frequentadores habituais da internet, mais de 2 milhões abriram página numa rede social. Em complemento, assinale-se que a principal motivação que animará os membros portugueses nas redes sociais cingir-se-á à... partilha de fotos.

Esta nova realidade, com tamanha adesão da sociedade, veio alterar bruscamente as relações humanas porque, além da democratização no acesso e na fruição, instigou o surgimento de novos problemas que derivarão da enorme exposição a uma realidade paralela, porventura demasiado alienante. E não ignoremos os ataques de criminosos digitais que, pelas mais diversas formas, escolhem as presas mais impreparadas com e-mails falsos ou programas maliciosos (cavalos de troia, vírus, escutas de digitação…), para assim descobrirem senhas e praticarem fraudes que surpreendem pelo nível de sofisticação.

Sinalizadas também as questões de competência ortográfica e gramatical, que denunciam cidadãos com inegável dificuldade em fazer-se entender nesta língua que (ainda) é a nossa, alerte-se para os novos “conflitos virtuais” causados pelas ameaças entre pessoas divorciadas, chantagens com imagens e vídeos de encontros amorosos anteriores, os namoros virtuais que resultam em grandes desilusões, a que se somarão crimes igualmente graves como a violação de direitos autorais, a invasão de privacidade, os processos por comentários difamatórios e ofensivos ou até mesmo a incitação de tumultos.

"Esta nova realidade, com tamanha adesão da sociedade, veio alterar bruscamente as relações humanas porque, além da democratização no acesso e na fruição, instigou o surgimento de novos problemas que derivarão da enorme exposição a uma realidade paralela, porventura demasiado alienante."

Excluindo desta reflexão os casos nacionais, que aguardam por uma efetiva conclusão judicial, recordo alguns acontecimentos que definem más práticas do uso das redes sociais. Sean Duffy, de 25 anos, foi preso por escrever mensagens no FB ridicularizando uma jovem que cometera suicídio. O britânico foi condenado a 18 semanas de prisão pelo que escreveu sobre a adolescente Natasha MacBryde, de 15 anos, e sobre outros jovens. A norte-americana Dana Thornton, de 41 anos, foi julgada no tribunal de Nova Jersey, nos EUA, pela acusação de ter criado um perfil falso do ex-namorado no FB e por ter publicado mensagens e comentários que comprometeram sua imagem. Em Chicago, um segurança de um aeroporto foi despedido depois de se ter “atirado” a muçulmanos na sua cronologia do FB. E, segundo o website “ABC7 News”, de nada lhe valeu ter trabalhado para o governo norte-americano durante… nove anos. Em abril do ano passado, uma funcionária de um banco no Reino Unido foi demitida por ter criticado o salário do superior também no FB. Stephanie Bon, de 37 anos, trabalhava por US$ 11,45/hora como assistente de recursos humanos num banco controlado pelo… governo britânico. Por fim, os ingleses Leigh Van Bryan e Emily Bunting que acabaram banidos dos Estados Unidos em razão de mensagens escritas no Twitter. Tudo começou quando Leigh enviou pelo microblog uma mensagem a uma amiga, anunciando que iria “destruir a América”. Num outro tweet, voltou a comentar com um amigo que estava em viagem de férias para “ofender pessoas” na Hollywood Boulevard e “desenterrar Marilyn Monroe”. É evidente que, em ambos os casos, tudo não passava de uma brincadeira. Porém, os agentes especiais do serviço de segurança dos Estados Unidos não tiveram o mesmo entendimento.

Em face do que se começa a perceber pelas novas implicações do recurso às redes sociais on-line, existirão algumas dicas que, em conformidade até com práticas diárias de convívio civilizado, poderão precaver dissabores maiores: evitar vínculos a marcas ou ao local de trabalho; publicar opiniões assentes nos princípios da boa-fé e da verdade e furtar-se a expor excessivamente a vida íntima por meio de comentários do seu dia-a-dia (horários, trajetos, agendas, local de residência…). De facto, qualquer utilizador deverá esforçar-se por não falar da sua rotina de trabalho, procurando resguardar o sigilo profissional. Para o efeito, impor-se-á utilizar linguagem e vocabulário adequados, de modo a evitar qualquer tipo de opinião que possa ser considerada ambígua, subjetiva, agressiva, hostil, discriminatória, vexatória ou que de algum modo possa ferir a imagem da sua entidade patronal, dos seus amigos ou de terceiros.

José Manuel Alho

 

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